Sua Morada Pixelada

Crônicas do Prefeito – O Holandês Desonesto

Seja bem vindo à minha mais nova e pessoal idéia para compartilhar memórias, o que deveriam ser textos perdidos em minha mente foram carregados ROMS adentro e entupidos de nostalgia.

Nesta leitura tento casar um evento gamer de minha vida com alguma lembrança que me marcou, muitas vezes esses eventos não estarão associados a como era o jogo, a verdade é que estas são histórias focadas em acontecimentos que são ligados com pontos chave da minha vida gamer.

Estas crônicas irão se unir como um golpe combinado de um épico jogo de luta para se tornar um livro.

Tudo isso só é possível graças a cada ouvinte que contribuiu para o crescimento da Cidade Gamer, seja como padrinho, como comentarista, ou por fazer parte dessa nossa população pixelada.

Agradeço também ao revisor desta humilde obra, Diego Maeda, que acredita na Cidade Gamer e nunca conteve elogios ao nosso trabalho no site.

Um Abraço Pixelado
Carlos Vivacqua

 

 

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O Holandês Desonesto

Capa da crônica - O Holandês Desonesto por Carlos Vivacqua
Capa da crônica – O Holandês Desonesto por Carlos Vivacqua

Nos dias de hoje em que gero e consumo muito conteúdo gamer, uma das coisas que mais me impressiona é a passagem do tempo documentada em gerações de vídeo games, saber que alguns consoles que parece que joguei por quase toda a minha infância fizeram parte de meros dois anos dela ainda me assusta muito, e é nessa distorção do espaço tempo que a história do Holandês desonesto se passa.

Há muito tempo atrás, não tínhamos vendas de contas compartilhadas da PSN no Mercado Livre, ou mesmo promoções de queima de estoque das Americanas, tudo que tínhamos era a Mesbla e um ou outro “importador” que trazia coisas de games.

O ano era 1988, e no meu prédio morava uma família de holandeses, uma mãe e seus dois filhos, e digamos que, diferente das outras crianças que jogavam bola, o filho mais novo deles compartilhava do meu gosto para “coisas de nerd” sejam elas desenhar, quadrinhos ou vídeo games, parecia que éramos “compatíveis”.

Sem saber do peso da marca, eu me dizia na época, um orgulhoso dono de um Super Game da CCE e na minha ingênua noção de posse, acreditava que tinha todos os jogos que eu jamais poderia querer. Nessa época, ter uma parte da sua casa dedicada a seu hábito gamer era impensável, pois o mesmo estava começando a existir, então não havia estantes, móveis planejados para console, ou cabos caros para ligar nossa máquina de entretenimento com nossas TVs de alta definição. O que tínhamos era um console guardado dentro de um saco plástico, uma caixa de sapato com jogos e um seletor de imagem TV/Game que deixava trocar o canal pro nosso vídeo game quando queríamos jogar.

Acho que na minha caixa de kichute cabiam uns nove jogos de Atari, e se me lembro direitinho, dentre eles estavam o jogo do Superman (Super Homem naquela época), Mr. Postman (O Carteiro), Enduro, e alguns outros jogos que teria que checar numa lista de ROMs da pasta de emuladores pra lembrar.

Mr Postman – O Carteiro (Atari Reprodução via Mercado Livre)

Nascido e criado em um prédio da Asa Norte de Brasília, era normal irmos jogar nas casas de nossos amigos, e o Holandês, por morar com a mãe que trabalhava o dia todo e o irmão, que fazia cursinho pra faculdade, tinha uma casa mais livre para o acesso dos gamers da década de 80 (quase 90 no caso).

A rotina de dia de jogos era simples, tirar o uniforme da escola, almoçar, escovar os dentes, colocar as fitas na caixa e partir para o segundo andar, no 206. E a casa do Holandês era sempre uma surpresa, seja em uma refeição típica que ele comia com a família, ou ele fuçando em algo que se meu pai me visse fazendo, me extinguiria da humanidade, sei disso por que vi uma vez o controle do Atari sendo aberto pra tentar consertar os danos feitos pelo Decathlon, e cheguei em casa falando:
-Pai, o que será que tem dentro do controle do vídeo game?
Que ele prontamente respondeu:
-Não sei, mas se você abrir pra descobrir e quebrar, eu não vou comprar outro!
Recado dado e recebido.

Quando você é tomado de timidez combinada com a insegurança normal de ser criança, você age sempre com receio do que vão pensar, das broncas que posso tomar ou até mesmo das consequências do que vou quebrar se eu for tão impulsivo, outras crianças, mais seguras e impulsivas eu tinha como admiração, mas também tem um terceiro tipo de pessoa, aquela que sente o cheiro da insegurança e calcula cada movimento dela para o seu proveito.

Em um daqueles belos dias que antecedem um feriadão, nossa ansiedade infantil era abastecida a cada hora. Qualquer sineta de fim de aula na escola parecia encher mais a barra de especiais do que viria a ser 4 dias de muito vídeo game e amigos.

Mas em plena terça-feira, eu e outro amigo fomos à casa do Holandês, pois ele pediu para levarmos as fitas pra já organizarmos a jogatina do feriadão. Chegamos lá, colocamos todas as nossas fitas na caixa do tênis de basquete do irmão dele, que calçava algo em torno de 44/45, e fizemos uma capa para a caixa:
“Diversão Garantida: Abrir só no feriadão!”

Eu e meu amigo fomos cada um pra sua casa para acabar aquele dia. No dia seguinte, ansiosamente aguardei o fim das aulas na quarta-feira, então o feriado que emendaria quinta, sexta sábado e domingo havia começado.

Minha mãe me buscou, e me levou pra casa da escola, acho que nunca balancei tanto os pés nos bancos de trás do carro como naquele dia, mas mal sabia que o pior feriado da minha vida até aquele momento estava apenas começando.

Almoçado, de banho tomado, e com alegria no peito fui até o elevador, um prédio antigo, um dos primeiros da construção de Brasília, e ao invés de parar no primeiro andar, ele desceu direto até o térreo. Sem indicadores luminosos para dizer onde eu estava, coloquei a cabeça pra fora, olhei para a direita, para a esquerda e percebi que estava na portaria, que antes compartilhava o espaço dos elevadores.

Ansioso e cheio de energia (como qualquer criança), pensei, são dois andares, o elevador vai demorar pra fechar a porta e começar a subir, sem falar nos solavancos que ele daria, coloquei cada mão minha em uma parte da abertura da porta do elevador bege, e me empurrei pra fora, me projetando para a escada e disparando a subir dois degraus de cada vez (é assim que penso que foi, mas sei que eu saí calmamente e só acelerei a subida da escada quando saí do campo de visão do Sr. Clodoaldo, o porteiro).

Chegando diante do 206, me deparei novamente com a porta que sempre abria para minha diversão, a casa do Holandês, com números de latão de cantos pontiagudos. E então fiz o de sempre, toquei a campainha e esperei. Passou-se alguns segundos e nada. Toquei novamente, e nada. Então fiz o nosso toque secreto, metralhando o botão de campainha quatro vezes e segurando no final, e absolutamente nada.

Mais toques, batidas e chamadas pelo nome não obtiveram resposta alguma, o que pode ter acontecido com o Holandês? Ele está bem?
E lá estava eu preocupado com meu amigo. Num lampejo desci três andares até a garagem e não vi a Caravan verde da mãe dele lá, algo estranho, pois ela ia trabalhar de ônibus e aquele carro mal saia de lá. Subi dois andares, parei diante do olho mágico do 105 e toquei a campainha da casa do meu amigo que iria lá jogar comigo no Holandês. Ele ainda almoçava, e não sabia de nada. Então pensei no básico, vou descer e interfonar, e na agilidade que nunca mais terei, pulei de quatro em quatro degraus enquanto eu descia e cheguei a portaria.

-Seu Clodoaldo, liga no 206 por favor!
-Ô Dú, o Holandês saiu hoje cedinho com a família dele e foi viajar!

Um murro de energia tomou meu peito e quase fiquei sem ar! O quê? Ele foi viajar? Mas, mas e a jogatina? E o fim de semana? E a nossa diversão?

Incapaz de agir quanto a uma força dessa, me tomei de tristeza e fiz o que qualquer outra pessoa com a minha personalidade faria, fui pra casa, sentei no sofá e fiz bico até virar tromba.
Foi um fim de semana em companhia dos meus pais, e na torcida de algo interessante acontecer, mas meu foco estava em todo vídeo game que eu queria estar jogando e não conseguia pela súbita viagem do Holandês, e apostava com todas as minha fichas de orelhão que a mãe dele tinha o tinha arrastado nessa viagem o Holandês se encontrava tão triste quanto eu.

Segunda-feira de tarde fui ver meu amigo, imaginando relatar o tédio do feriadão enquanto jogávamos o que não conseguimos naqueles quatro dias. Então desci até o segundo andar e toquei sua campainha novamente, ele abre a porta e me olha surpreso, fecha a porta na minha cara e volta quase um minuto depois. Opa Carlos, entra aí, e me conduziu até o quarto como era de costume.

A TV recém desligada emitia aquela estática familiar a muitos dos nerds velhos de hoje, e dentro do Atari dele, um jogo novo em folha, H.E.R.O.
-Caraca, eu vim reclamar do meu feriado, mas no teu tu viajou e ganhou um jogo novo, que incrível!
Ele meio que sem jeito perguntou se eu queria jogar, e respondi com a cabeça que sim, ele puxou o pino da TV Philco dele, e sem precisar apertar o canal três, a TV já mostrava a imagem do jogo, ele estava jogando quando cheguei. Joguei umas quatro vezes, até que ele, completamente sem jeito pede pra eu sair, eu entendi e falei, tudo bem, deixa só eu pegar meus jogos que deixei aqui na terça.

-Seus jogos não estão mais aqui Carlos, agora vai embora!
O Holandês, 5 anos mais velho que eu, praticamente me carregou pra fora, fechou a porta atrás de mim, e passou o trinco, e eu, perdido por tudo que acontecia, fui pra casa lamentar pra minha mãe.

Ela que trabalhava de manhã no Jornal de Brasília e a noite fazia faculdade, estava sempre em casa de tarde, e ouviu pacientemente tudo que eu dizia, então a paciência dela se evaporou com o calor do sangue nordestino dela e gritou:
-Esse muleque pegou seus jogos e trocou no jogo novo, vai atrás dele e fala umas boas verdades pra ele.

E foi o que fiz, depois de não encontrar ele nem no 206 ou no 105, desci e lá estava ele se gabando da viagem para os meninos mais velhos do bloco, interrompi entrando na frente e falando.
-Holandês, quero meus jogos de volta por favor!

Ele colocou a mão no meu ombro e com a força que parecia descomunal ter (era só por ele ser mais velho mesmo), ele me moveu da direita pra esquerda como se eu fosse uma conta em um ábaco.
-Como falei, eu não estou mais com seus jogos, você perdeu eles cara!

Aí a parte nordestina do meu sangue ferveu, tudo que eu tinha estava naquela caixa, e os xingamentos não pararam de sair da minha boca, provavelmente imaturos e infantis e sujos, mas xingamentos a mãe dele foram direcionados de boca cheia.

Lembram que ele mora no 206? Diferente de prédios em outras cidades, em Brasília, não tínhamos Play, ou garagens suspensas, era, garagem, térreo, primeiro andar, segundo andar e assim por diante e foi do térreo que eu proferi tamanhas ofensas.

Isso é importante por que depois que o Holandês, mais uma vez me expulsou da roda de adolescentes, ele me empurrou para que eu caísse no chão. Me levantei e com lágrimas quentes de raiva subi pra casa, era quase noite nessa hora, e minha mãe se preparava pra ir pra sua aula, enquanto colocava grampos em seu volumoso cabelo ela falava, vá na casa desse menino e peça pra mãe dele seus jogos de volta.

De lá do banheiro de minha casa saí até a porta do 206, desci todos os quatro andares de escada, recuperei o fôlego e toquei mais uma vez a campainha, e eis que a mãe do Holandês abre a porta, eu coloco minhas duas mãos pra trás, olho nos olhos dela e falo:
-Senhora, o seu filho…

Fui interrompido com uma explosão vocal que só quem tomou bronca de mãe braba conhece, e da garganta dela saiu as seguintes palavras:
-Você é o menino que xingou meu filho e me xingou agora a pouco lá de baixo do prédio né? Ouvi tudo da janela, meu filho NUNCA MAIS irá ter contato com você!

Ela bateu a porta e eu fiquei lá, uma vítima de uma situação que fugiu do meu controle por confiar num amigo meu, e chorando voltei pra casa e vi meu pai sentado em sua cadeira do papai lendo seu jornal com um copo de Campari na mão, ele perguntou o que havia de errado, eu contei e ele respondeu:
-Espero que você tenha aprendido uma lição, agora você vai ficar sem jogos até seu aniversário, isso se você merecer ganhar alguma coisa.

Esse foi um dos primeiros momentos que me recordo de notar que a vida não é um lugar muito justo, e que algumas pessoas vão te apoiar e outras podem fazer o que bem quiserem pra tirar proveito. Eu nunca saberei o que realmente aconteceu com minhas fitas de Atari, só saberei que por minha vida passou um Holandês Desonesto.

 

Criado em um laboratório por motivos de puro luxo e inveja, Vivacqua tornou-se o inventor da internet e em seguida da primeira máquina do tempo.

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