Sua Morada Pixelada

O Balcão dos Sonhos

Todo mundo tem uma história de fracasso, muitas delas surgem daquele lugar sombrio onde nosso poder se nulifica ao entrar em contato com a enfermidade casual e sucumbimos. Em outras palavras, muitas das situações ruins das nossas vidas, acontecem quando não temos poder qualquer sobre elas.

O balcão dos sonhos, apesar de descrever quase que um móvel de loja mágico, nada mais é do que o local onde eu via pra onde minha imaginação poderia me levar, era com o que estava exposto ali que eu sonhava quase toda noite.

E o sonho de poder compartilhar tal história com vocês é tão boa quanto a sensação de me aproximar daquele balcão na minha infância, então agradeço a cada um de vocês que tirou um tempo pra mergulhar em minhas memórias.
E este material não seria publicado sem a revisão do nosso querido morador pixelado, Willyan Cavalcanti!

Caso você queira ler o conto no formato ebook escolha a versão que preferir e faça o download.

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O BALCÃO DOS SONHOS

Acho que a melhor maneira de contextualizar o conto dessa semana é situar todos vocês leitores de alguns pontos chaves dessa trama temporal, cada um desses elementos implica em fatores isolados que combinam numa história com um final que deixo vocês julgarem se é bom ou ruim.

Capa da crônica – O Balcão dos Sonhos por Carlos Vivacqua

Nasci no dia dois de novembro do ano de 1980, e pude testemunhar a popularização da mídia de vídeo games, vendo o fliperama virar console, o cartucho virar CD e o jogo digital surgir.

O ano é 1990 e a cidade é Brasília, a nova geração de consoles chega sem se despedir direito do que o Atari e o Odyssey fizeram pela mídia, e as lojas Mesbla dedicam parte de seus corredores aos mais diversos jogos de Master System que a TecToy pode lançar.

Mas essa história não é sobre jogar Alex Kidd ou reunir os amigos pra várias rodadas de Jogos de Verão no vídeo game vermelho e preto, mas de um pequeno Vivacqua que foi afortunado de ganhar de presente de seu irmão mais velho um NES, o Nintendo Entertainment System, ou o Nintendinho para os íntimos. Um console que precisou de transformador pra funcionar nas tomadas 220v de Brasília e precisou ser transcodificado pra que eu pudesse jogar qualquer jogo em cores nele.

Como diriam as propagandas da TecToy, o Master System era febre, estava em todos os lugares. E diferente de hoje, ter dois vídeo games nessa época ia além do luxo, era impensável por todos os padrões financeiros, mesmo os “riquinhos” da minha infância tinham um monte de jogo de um vídeo game mas não tinha dois aparelhos.

Menos Nintendinhos vendidos no Brasil quer dizer que ele não era popular, então contávamos com duas locadoras, a ProGames e a outra não me lembro o nome, pra mim era um Balcão dos Sonhos onde eu ia tentar alugar os jogos das Tartarugas Ninjas todo fim de semana.

Locadora Progames
Propaganda da ProGames da década de 90

Meu aniversário de 10 anos estava chegando e meu pai fez uma promessa, um cartucho de NES no lugar de três presente de fim de ano. Entendam, até o vídeo game entrar na minha vida, o que eu fazia era ganhar um presente em outubro (dia das crianças), novembro (meu aniversário) e finalmente um presente em dezembro para o Natal. Eram sempre complementares, e não três grandes presentes. Abri mão de três mimos por um jogo, pois pra mim, aquilo era a minha vida.

Só que tínhamos um problema, Brasília em 1990 não tinha um camelódromo como a Feira dos Importados de hoje. Só haviam feiras ilegais que mal traziam coisas da Nintendo pra cá, diferente da TecToy que colocou fitas de Master em cada Mesbla, Mapping e Jumbo Eletro, achar fitas da minha caixa cinza se mostrou um desafio.

Eis que um dia fomos na locadora “Balcão dos Sonhos” e meu pai pergunta pro dono:

“-Vocês não vendem fita pro Nitendo?”

Era assim que meu pai chamava, com um N a menos, doía um pouco aos ouvidos, e dói mais de ler hoje em dia, mas eu achava maneiro por ele se interessar de alguma forma.

Me lembro até hoje disso, o atendente respondeu com um firme sim, e falou, os jogos desse lado do balcão estão para a venda!

Meu pai se prontificou, me levantou e me colocou em um banquinho de madeira, segurando próximo a ele, pra que eu não me jogasse no balcão de vidro, lá fiquei vidrado com as possibilidades. Muitos jogos estranhos que só me lembrei quais eram quando vi as caixas como adulto na Internet, mas dois jogos me marcaram muito, eram eles Super Mario Bros 3 e De Volta Para o Futuro 2 & 3.

Aquilo me abalou, um jogo de dois dos meus filmes favoritos, meu novembro acabou de ficar mágico, lacrado no plástico lá estava, em frente do DeLorean a mais imponente máquina do tempo do século XX na capa de um jogo do meu vídeo game. Mas é aí que mora o perigo do jogo de filme, do produto licenciado, você mexe com o sentimento gerado pela outra mídia.

Na minha cabeça, eu andaria de skate voador, bateria em punks do futuro, me aventuraria a bordo de um trem super veloz, montaria a cavalo e teria duelos ao entardecer, na minha cabeça de 10 anos de idade, eu iria jogar os filmes em casa.

Que chance o Super Mario Bros 3 teria? Se precisou de três jogos pra ficar bom, não merece uma chance, e com esse pensamento, peguei a caixa com os dizeres “Back to the Future 2 & 3”, abracei contra o peito e saltitei ali na locadora enquanto meu pai preenchia o cheque pra pagar o jogo, anos depois tentei descobrir quanto meu pai pagou por esse meu devaneio, mas nunca descobrimos.

De Volta Para o Futuro 2 & 3
De Volta Para o Futuro 2 & 3 Lacrado a Venda no ebay

Essa é também a primeira vez que me lembro de ter tido o famoso “motion sickness”, ou algo parecido com labirintite, pois cada vez que eu tentava ler a capa do jogo no caminho de volta pra casa no fusca marrom do meu pai, eu sentia que ia vomitar, então me poupei mexendo nas costuras do banco de trás do carro, me concentrar em algo que não tivesse palavras diminuia meu enjoô.

Chegamos em casa e a ansiedade poderia ser cortada com um sabre de luz, pois eu ainda tinha que almoçar, e como estava enjoado do carro, a fome não veio, e meu pai achou que era manha pra eu não comer e ir jogar, mal sabia ele que se eu sentasse na frente da TV enjoado, eu ia ficar tonto, então almocei bem devagar e me planejei conforme a rotina de meu pai, em uma casa com uma só TV, ele ia almoçar, assistir o Esporte Espetacular e ir tirar a sua soneca de sábado, e foi o que ele fez.

O Nintendo não tinha a famosa chave TV/Video Game, então eu só precisava abrir a caixa da fita, assoprar (o que descobri ser errado mais tarde) e ligar o NES, e foi exatamente o que fiz.

Os momentos seguintes foram bem estranhos, algo não parecia certo ali, até então, dono de dois jogos, Mega Man 2 e Super Mario Bros, eu achava que havia algo de errado com o meu de volta para o futuro. Depois de 30 minutos jogando, as idéias mais absurdas passavam por minha mente.

“Talvez estar empolgado demais e não ter escovado os dentes possa ter contaminado meu sopro, e lá fui eu escovar os dentes com Kolynos Star Gel!”

Voltei, desliguei o vídeo game, abri sua tampa, empurrei pra baixo o cartucho e ele subiu graças ao inventivo sistema de molas, puxei o cartucho, enchi o pulmão de ar e assoprei, agora com as estrelas da pasta de dente ao meu lado, coloquei a fita de volta, liguei o console e voltei a jogar, mas nada mudou.

O jogo era ruim.

Não havia nada que poderia ser feito, não era um game que começava em uma fase de um jeito e depois tudo mudava. Era um jogo de plataforma que não tinha nada do filme além do fato que um DeLorean voador te largava no chão depois que você morria. Sem dúvida alguma, era a pior coisa que eu já tinha jogado na vida, e foi 100% minha escolha, eu deixei Super Mario Bros 3, um dos mais inovadores jogos de plataforma de todos os tempos pra escolher um jogo que não funcionava nem se fosse algo genérico, muito menos como o jogo oficial do filme mais emocionante da minha infância.

Toda tentativa de me divertir com o jogo se mostrou frustrante, e tentar achar algo que ligasse essa aberração com o filme me deixava ainda mais perdido. Quando meu pai acordou, se deparou comigo tentando extrair algo do jogo, ele por não entender, imaginou que minha frustração era por causa da dificuldade e não da qualidade do game.

Eu ainda tentei por alguns dias, de verdade, aproveitando que o meu aniversário caia em um feriado, mas logo logo fiz o inimaginável, pra não admitir meu erro das minhas escolhas, fingi ter mais dever de casa que realmente tinha e enfiei a cara nos livros.

Essa foi uma das primeiras vezes que senti as consequências de minhas escolhas, e a vergonha do meu erro não me deixou admitir isso, não queria que meu pai tentasse resolver, senti que tinha que arcar com isso, e pareceu a coisa certa a fazer, e assim fiquei eu, com um dos piores jogos da história do Nintendinho acumulando poeira em minha coleção de três fitas.

 

Confira o Gameplay do Prefeito Vivacqua de De Volta Para o Futuro 2 & 3 para Nintendinho.

Criado em um laboratório por motivos de puro luxo e inveja, Vivacqua tornou-se o inventor da internet e em seguida da primeira máquina do tempo.

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